No começo da semana tive um encontro com minhas lembranças de garotinha. Estava quente. (Sobre este ponto aliás, o Paraíso para mim jaz na Sibéria, odeio verão! Odeio transpirar excessivamente, aquela luminosidade, o ar quente que nos impede de melhor gesticularmos, não importa a quantidade de banhos ou líquidos que ingerimos, o calor não passa!)
Mas enfim, o verão trouxe vantagens este ano. Por exemplo, estava eu andando nas ruas do centro de Osasco, com muita sede quando vi uma banquinha que estava vendendo suco natural de laranja. Perguntei ao dono se o produto era de fato natural, quero dizer, se o tal suco de laranja era laranja mesmo. Nem precisou, só o cheiro e a textura do suco me persuadiu: aqueles sucos industrializados são pavorosos! Suco bom, é suco natural, na falta é preferível ingerir água.
Perguntei em seguida se o suco era adoçado, a razão é simples: odeio suco com muito açúcar, principalmente aqueles de poupa ou os de laranja. O açúcar tira o sabor da fruta, sendo assim, salvo o suco de limão, os demais vão com no máximo uma colher de sopa de açúcar rasa para um copo de 250 ml. Se for mais do que isso eu sinto a diferença no sabor e aquilo que deveria ser um prazer vira algo monótono, sem graça mesmo. Todas as vezes em que eu peço um suco natural, eu passo raiva: sempre tem uma pessoa que não ouve a única colher de açúcar no suco. E, no caso do suco de laranja, ocorre algo ainda pior: o suco é visivelmente diluído, mais água do que laranja, para disfarçar o gosto insosso, acrescentam açúcar.
Para minha felicidade o simpático senhor respondeu que não adoçava o suco, então eu sorri e pedi um copo grande. Me senti tão feliz quanto uma criança quando ganha chocolate na Páscoa. Então veio o momento mágico: Ao dar o primeiro gole, não só matei a sede que sentia até então, como veio na memória um gosto que eu sentia aos 4 ou 5 anos.
Lembro me que minha avó materna se casara com um senhor muito bom e doce, um pouco sério e fechado, mas um ser humano maravilhoso. Sendo eu a primeira filha da primeira filha, isto é, a primeira neta, eu era incrivelmente mimada tanto pela minha avó quanto por este senhor que, me tinha como neta. Todos os dias em que eu estivera na casa da minha avó, este homem sempre me comprava balinhas de açúcar que vinham nos brinquedinhos, eu tinha uma coleção: ferro de passar, fogão, liquidificador, etc... Mas a gente compartilhava de um gosto único e singular por suco de laranja, éramos igualmente exigentes: pouca água, nada de açúcar, a laranja não pode ser nem muito doce nem muito azeda, mais para o azedo do que para o doce.
Infelizmente o casamento entre eles não deu certo. Ele separou-se de minha avó quando meu irmão tinha poucos meses de vida. Perdemos contato, pois há 16 anos atrás não era como hoje, não tinha telefone a disposição do povo, celular talvez nem existisse, internet muito menos... O fato é que ainda que eu soubesse que ele não era o meu avô, o sentimento que eu sempre alimentei por ele era o mesmo de uma neta. Diria até que se eu o encontrasse em uma rua, eu seria capaz de reconhecê-lo, muito mais até que alguns colegas de escola e balada. Acho que é sentimento, quando se estima muito uma pessoa, por mais tempo que fiquemos sem nos ver, o esquecimento esquece-se de si mesmo, porque o sentimento de amor e cuidado, ainda que vestido de saudade, acaba por vencer a amnésia.
O suco de laranja me fez lembrar, e me fez sentir mais saudade. Mas a saudade, não é tão ruim assim, nos faz lembrar. Talvez hoje eu entenda o por que que a "Saudade precede o Amor"...