Muda desde nascença. Insiste em correr ou se camuflar ao menos ruído ou susto. Apesar de tudo Eirene se faz notar quando quer: com ou sem barulho. Muito nos diz sem absolutamente nada nos dizer. Sua linguagem é distinta: emite sinais, perceber sinais é perceber a presença de Eirene.
Nem grande e nem pequena. Eirene tem os dois tamanhos: grande demais para fazer-se notar sua pequenez exata.
Ao lado da Pequena Grande Eirene, a gente entende que o excesso serve apenas para preencher o vazio, uma desconhecida falta. É por isso que o excesso facilmente vira vício camuflado no hábito; por isso mata sem nos satisfazer tanto quanto a falta. Com Eirene não há vazio, enchente, falta ou excesso. O que há é a plenitude vivida em breves instantes - que variam entre um piscar de olhos, uma estrela que se apaga no céu, no máximo, até o término de um dia. Do contrário, se ela estivesse sempre presente em nossas vidas, a felicidade não seria percebida, a própria vida não teria ela sentido em ser vivida.Mas por alguma razão, Minha querida e estimada Eirene anda sumida. Tentei encontrá-la em lugares e situações mais diversas: no silencio da noite, por entre as folhas molhadas de orvalho, por entre o colorido dos dias...Busquei por ela no olhar de desconhecidos, palavras de um amigo, entre livros carcomidos, através de um gesto de um ente querido. Faz um certo tempo que estou a procurá-la desesperadamente na falta de meus segundos e no excesso de meus dias. Sem obter pistas, todavia.
Chego a pensar que talvez Eirene não habite mais este plano por duas razões possíveis:
Ou porque ela se cansou de tudo isso ou talvez porque o homem tenha deportado a própria paz neste tempo de guerras.
*Eirene= Paz, Primavera em grego
