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Um segredo guardado a 7 chaves vou revelar aqui. Trata-se de uma frustração infantil, talvez a última antes da Verdade sobre o Papai Noel.
Meu sonho de consumo sempre foi uma casinha de boneca, dessas que a criança entra e ficar dentro o dia inteiro. Eu via naquele sonho, a possibilidade de ter um mundo, um espaço só meu. Não que eu não gostasse de ter o meu quarto com a minha tv. Aliás, eu sabia que nesse ponto, eu tinha a sorte de poucos. Mas mesmo tendo um quarto e meus pais me dizendo que aquela casa era ( ou é) minha, eu nunca me senti como tal. O sonho da casinha cor-de-rosa com cerquinha branca, era a possibilidade de ser dona de algo, de um mundo inteiro talvez. Lá não haveria monstros, tudo seria do meu jeito. Eu seria dona daquilo tudo.
Mas apesar deste ser o meu maior sonho, a casinha nunca deixou de ser um anseio secreto. Bem, meus pais sempre me disseram: " filha, nada nessa vida foi, é ou será fácil. Nada vem de graça. E tudo o que a gente conquista nesse mundo, tem que ser por merecimento, por esforço. O dia em que alguma coisa vier muito fácil, desconfie."
Na verdade, parando para pensar, eu merecia ganhar uma casa de bonecas cor-de-rosa, e lá no fundo sabia disso. Eu nunca fui de dar trabalho: sempre procurei me comportar, estudar, obedecer os mais velhos, dividir com o meu irmão mais novo. Mas justamente porque eu sabia do esforço e por reconhecer que o meu sonho era muito caro, aos meus pais que tanto batalhavam para criar a mim e ao meu irmão, eu sempre tive vergonha de fazer menção sobre este assunto. Eu sabia, que as coisas não eram fáceis em casa: fazia compras com a minha mãe, sabia que toda vez que meu irmão adoecia ( bastava um sinal tanto do "el niño" quanto da "la niña") minha mãe morava por dias no hospital, e meu pai pegava cheques emprestado ou vale no trabalho. Então, não era justo. Entende?
Bem, tinha o Papai Noel, mas mesmo o bom velhinho tinha de ser poupado. Na verdade, pelo fato de eu achar a casa tão grande e pesada (quanto cara aos meus pais), eu não achava justo ocupar tanto espaço no trenó de um velhinho que distribuía presentes para todas as crianças do mundo. A casinha ocupava muito espaço, e por isso eu poderia, com o meu "capricho" tomar o tempo e o lugar dos brinquedos de outras crianças no mundo, tão merecedoras quanto eu.
Absurdo ou não, eu realmente pensava assim quando criança. E por maior que fosse minha frustração secreta, (a primeira de uma sequência absurda,) eu sobrevivi e aprendi algo útil. Como diria Sir Mick Jaegger: "You can't always get what you want".
Ciente de que "eu nem sempre consigo obter o que eu desejo", eu ao menos sou mais resistente que muitos da minha geração. Desde cedo, aprendi a olhar para os lados, a dividir, a questionar e repensar. Nunca fiquei doente ou dei chilique por uma boneca ou luxo. Aprendi a dar valor, a desconfiar do que é fácil, a engolir o choro e pensar em outras coisas...
E quanto ao sonho da minha casa de boneca própria , ele foi remanejado e ampliado: se eu não tive minha casinha de boneca cor-de-rosa com cerquinha branca quando criança, agora adulta eu quero uma casa maior e de verdade: toda cor-de-rosa com cerquinha e janelas brancas. E eu sei que eu vou chegar lá, porque eu sei que nada vem de graça, tudo é por merecimento e se eu quiser mesmo, só eu posso conquistar. E pra isso, é só tentar.