"Quem sou eu" Boa pergunta. Certa vez um artista plástico que eu conheci em um bar me indagou: "Por que as perguntas mais simples são as mais difíceis de responder?"
Dizem que o primeiro passo para ser sábio é se conhecer. O problema é que eu mudo a todo instante, o mundo me move para uma mutação contínua: seja no aspecto físico, afetivo, moral, intelectual.
Há quem diga que é através do "outro" que nos conhecemos ou nos reconhecemos, deste ou daquele jeito. São os afetos que de certa forma nos molda, nos modifica. Mais do que afetos vãos, estes afetos são voltados para um segundo sujeito que pode ser semelhante ou não. Eu reconheço a semelhança no outro, eu me aproximo do outro, me aprimoro. Da dissemelhança, surge a necessidade de adaptação, que envolve a agregação: os opostos se atraem porque se complementam, o que falta em um, tem no outro e vice-versa. Neste caso, eu amo o outro pelo porque ele tem aquilo que eu não tenho, ele é aquilo que eu não sou, e por isso eu mudo, deixo aflorar minhas potências até a pouco ocultas.
Conhecer é lembrar. Só se conhece aquilo que se pratica, só se sabe aquilo que é experimentado. Desse modo conhecer a mim mesma, poderia ser conhecer e praticar aquilo que eu sou ou aquilo que eu faço. Assim, de certo modo, eu sou aquilo que eu faço. Alguem que se inventa e se reinventa.
Sou alguem que pensa, a simples ação de duvidar até mesmo da minha própria existência, já afirma e atesta a mesma. Mas não responde de fato, quem eu sou ou que lugar eu ocupo aqui.
Eu sou alguma coisa que cria coisas: que imagina, que ilude, que crê, que faz, que reproduz, que sente, que pensa, que escolhe, que opina, que contesta. Sou alguem que sente: medo, segurança, prazer, dor, frio, calor, ódio, amor, agonia, alegria.
Alguém que segue o fluxo, que se perde no curso, que se conheceu e que se desconhece, que corre enquanto espera, que se desespera. Um ser absurdo, com o propósito de sobreviver a si e ao resto do mundo. Filha de dois jovens que não sabiam ao certo as consequências de suas decisões, que hoje são mais velhos e volta e meia me vem com sermões. Filha de um Deus, causa, Principio, acaso, de um Tudo, quiçá, do próprio Nada, ou algum desses conceitos realizados. Brasileira, paulista, humana, mestiça...
Exemplar do gênero feminino da espécie Homo Sapiens. Humano, tirano, insano, elouquente, frequentemente mudo. O meio entre o angelical e o animal, o bem e o mal. O Sísifo que dribla a morte, mas não foge do cotidiano. O Prometeu que ousa desafiar poderosos deuses, um condenado a pagar por suas ações do dia-a-dia. Uma Psiqué que transcende a si mesma por Amor. Um cego que conhece seus caminhos, mas que tropeça em promessas. Luz e Sombra espelhados.Contemporânea com aspirações futuristas, menina que sonha à moda antiga. Paradoxo angustiante e angustiado. Aspirante á Herói, mais um individuo anonimo ainda a ser desenvolvido. Condenado á ser livre e acorrentado a esperança. Algo a ser pensado. Algo a ser inventado...
