Talvez a fase mais fértil da minha vida tenha sido na adolescência, quando eu namorava um garoto louco que certa vez me pediu para que eu lhe escrevesse uma carta e lhe desse de presente. Como eu sempre fui uma garota introvertida, com sérias dificuldades de me expressar verbalmente, passei a enviar cartas constantes. Fazia declarações, falava do meu dia-a-dia, fazia críticas, falava dos meus sonhos...Esta fase durou 3 anos. Naquele tempo, eu não tinha blog. Escrevia em diários, e aquele garoto era um dos poucos que conseguia transitar no meu "mundo particular e secreto".
Pois bem, terminamos. Meus amigos me incentivaram a criar o Blog anos depois. Desta forma, consegui escrever com mais freqüência sobre aquilo que eu sinto, penso mas não consigo dizer. Enquanto isso, o guardião, o portador daquelas 200 ou 300 cartas continuou a guardá-las, como um tesouro, algo raro, algo de mim que talvez nem eu saiba. Nos tornamos amigos, seria ridículo e pequeno da minha parte guardar mágoas de uma pessoa que apesar das turbulências, me trouxe muita coisa boa. Ele foi o primeiro: amor, interlocutor, aventura, balada, valsa...Sim, foi meu primeiro "tudo"!
Nos tornamos amigos, ele casou e "descasou", teve um filho ( ele dizia que teria um muleque chamado Guilherme algum dia. Ele me dizia isso, e não é que ele teve mesmo!). Certo dia, este meu amigo ao pegar seu filho para dar uma volta, recebeu de sua ex-mulher um pacote com todas as minhas cartas. Ele chegou a pensar que ela tinha se desfeito destas, mas não, ela as guardou e as entregou de volta ao verdadeiro dono. Ele mexeu, releu uma e depois outra e outra e mais outra...Entrou em contato comigo, contou-me a história, queria me devolver as cartas que eu dei a ele anos atrás. Uma parte de mim ficou curiosa para ter um reencontro com aquela menina dos cabelos longos de all star vermelho e com a cabeça nas nuvens...queria por um lado conversar com ela, ouvi-la e saber se eu a perdi ou se "parte" dela ainda vivia em mim. Mas por outro lado, aquilo que eu escrevi e dei de presente no passado, não era meu. Era e ainda é do meu amigo, do meu primeiro amor. Aceitar de volta aquilo que eu dei seria inútil e pouco justo para aquela garota de 10 anos atrás.
Então disse a ele: "São suas, não minhas. Escrevi lá atrás para você, tudo alí era real. Aquela garota te amou muito. E o que eu faria com as cartas que não são minhas? Se não faz sentido para você guardá-las, queime-as!" Ele hesitou, disse que dá muita dó se desfazer delas de forma tão violenta. Por outro lado, confessou-me o quão doloroso era ler tudo aquilo novamente.
Insisti, disse para ele se desapegar do passado e que o carinho por ele, o carinho e respeito por ele lá atrás ter dado vida a aquela garota ainda existia. Assim, ele optou por guardá-las no sotão de sua casa.
O respeito e até uma certa gratidão permanece, na mesma intensidade do amor que eu tenho pelo meu amado atual, pelo gurí com quem sonho toda noite. É bem verdade que eu não escrevo cartas ao meu namorado, que eu não sou tão doce com ele como fui com o primeiro. A gente muda, isto não torna o amor do passado maior ou menor que o do presente. É só questão de tempo, identidade e pessoas.
Vaga-lumes são inspirações noturnas que brilham em meu quarto. Múltiplas e frenéticas colidem entre si; e como estrelas que se unem em constelações, nasce o verso, a prosa sem nexo, a doxa, a palavra sufocada.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Cartas
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