quinta-feira, 7 de outubro de 2010

ingenuidade

Ao contrário de muitos idealistas, eu nunca fui ambiciosa o bastante para querer consertar o mundo através de uma utopia. Mas como todo idealista que se prese, sempre fui ingênua o bastante para alimentar uma utopia. E justamente por isso, justamente por ansiar uma indescritível paz e liberdade que eu fui fadada à inúmeras guerras.

Há quem me tome por ingênua e imprudente, acusam-me de não conhecer a realidade simplesmente por manter um olhar utópico de quem contempla o "nada" e que se surpreende com o mundo o tempo todo. Confesso, eu não encontro razões para sentir medo ou pudor ao transparecer minhas impressões e fascínios. O pudor não é um sentimento muito cômodo para mim,eu o vejo como um gasto excessivo e inútil de energia. O homem se preocupa tanto em se esconder que acaba por se negar e, em dado momento, passa a se desconhecer. Quando a gente se desconhece e perde nossa energia vital, nos não só perdemos grandes oportunidades de auto conhecimento e auto dominio, como também, nos tornamos pessoas passivas que vivem à mercê dos outros.

Ao permitir-me transparescer tudo aquilo que eu sinto, como se fosse a primeira vez, eu me sinto isenta de uma culpa: eu me sinto uma pessoa sincera não só comigo como também, com o outro -, desde que, o outro seja capaz de interpretar as entrelinhas do meu olhar. É com estas palavras ingênuas que eu, cinicamente me despeço com total desprezo do meu ciclo de saudades de um passado que não me pertencem e, de uma espera inútil de um futuro que nunca vem. Sem saudades, sem esperas sigo um presente acompanhada apenas de meu cinismo ingênuo - ou de minha ingenuidade cínica.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Ode à Eirene*

Tudo o que posso dizer é que Eirene é colorida, mais parece pintura em aquarela. Alem de tudo é frágil e singela, indescritivelmente bela!
Muda desde nascença. Insiste em correr ou se camuflar ao menos ruído ou susto. Apesar de tudo Eirene se faz notar quando quer: com ou sem barulho. Muito nos diz sem absolutamente nada nos dizer. Sua linguagem é distinta: emite sinais, perceber sinais é perceber a presença de Eirene.
Nem grande e nem pequena. Eirene tem os dois tamanhos: grande demais para fazer-se notar sua pequenez exata.
Ao lado da Pequena Grande Eirene, a gente entende que o excesso serve apenas para preencher o vazio, uma desconhecida falta. É por isso que o excesso facilmente vira vício camuflado no hábito; por isso mata sem nos satisfazer tanto quanto a falta. Com Eirene não há vazio, enchente, falta ou excesso. O que há é a plenitude vivida em breves instantes - que variam entre um piscar de olhos, uma estrela que se apaga no céu, no máximo, até o término de um dia. Do contrário, se ela estivesse sempre presente em nossas vidas, a felicidade não seria percebida, a própria vida não teria ela sentido em ser vivida.
Mas por alguma razão, Minha querida e estimada Eirene anda sumida. Tentei encontrá-la em lugares e situações mais diversas: no silencio da noite, por entre as folhas molhadas de orvalho, por entre o colorido dos dias...Busquei por ela no olhar de desconhecidos, palavras de um amigo, entre livros carcomidos, através de um gesto de um ente querido. Faz um certo tempo que estou a procurá-la desesperadamente na falta de meus segundos e no excesso de meus dias. Sem obter pistas, todavia.
Chego a pensar que talvez Eirene não habite mais este plano por duas razões possíveis:
Ou porque ela se cansou de tudo isso ou talvez porque o homem tenha deportado a própria paz neste tempo de guerras.


*Eirene= Paz, Primavera em grego

Palavras do silencio


Tem quem fale demais e ouve menos. Tem quem ouça mais e diga menos. Há quem reproduza o som das palavras. há quem considere a palavra dita e quem desconsidere. Há quem distorça o significado da palavra e tente nos persuadir que sua interpretação é a correta. Falem o que quiser e sem pensar, palavra minha hoje é "SILÊNCIO". Silencio não fala mas nos persuade a pensar antes e depois de falar!

Palavra é espada: existe justiça na palavra, injustiça também. Existe falta na palavra, tal qual o excesso em palavras. E existe é claro, a palavra "justiça", a palavra "Fé",a palavra "Falta" e "excesso". Existem os substantivos, adjetivos, verbos, advérbios... Versos, palavras diversas e sem nexos, pensamentos sem nexo.

Existiria verdade nas palavras? Eu sei que existe a palavra "verdade", mas qual é a verdade em seu real sentido?
Metáforas, sátiras, hipérboles, antíteses, eufemismos...comédias, tragédias, autos, poesias, romance, prosa poética...A palavra tem sabor, textura, odor? Pois esta aqui tem cor, esta mesmo é
Azul
.

Quem fala demais, diz de menos. Fala para não ficar só, mas acaba por ficar só com palavras. Quem fala de menos precisa dizer de vez em quando pra não ficar só, também.


A palavra nasce quando é dita e pensada, morre no mesmo instante que nasce. A palavra é abortada: vira espada e escudo, carinho e tapa!


A palavra foi morta por outra palavra, isto se chama discurso, falácia!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

heróis

O Herói é um miserável, um coitado. O herói, o herói de verdade morre só, morre pelo outro, á favor do outro, morre por uma causa, morre só por morrer por outro.
Não existem Heróis, não existem santos, não existem sábios. Eles morrem antes mesmo de se tornar de fato. São reduzidos e ridicularizados, na medida em que suas existências, ações e pensamentos são reduzidos á palavras vãs, daqueles que os sucedem e se beneficiam.

Sim sim, é triste, é trágico...Mas o bom disso tudo é saber que não há motivos bons o bastante para cogitarmos a possibilidade de nos tornarmos ídolos e mártir de um povo ou de uma Era. Pesa menos quando se descobre que ninguém é perfeito. Meus ídolos, estão mortos. Meus amigos, minha família, são pessoas comuns diferentes mas assim como eu são comuns. É isto que os tornam em pessoas extraordinárias...Não são meus ídolos, apenas pessoas influentes!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

GRANDE Solitário

Anoiteceu novamente, e novamente estou só!há tanto tempo estou só...-Não entendo, realmente não entendo como ainda não me acostumei, qual foi o momento em que eu não estivesse, ainda que acompanhada, só?
De qualquer modo, a solidão serve de boa companhia: é muda, nos dá total autonomia!
Um dia nossas escolhas, nossas crenças, se voltam contra nós sob a forma de fardos, açoites e grilhões. Até o homem mais forte, se cansa: a armadura, o escudo e a espada pesam! Se tirassem tudo isso dele, ele seria um homem comum, restariam as mãos , os pés os cabelos e a mente: um homem comum, com dores comuns e a mesma fadiga em comum.
Quando pequena fiz minha primeira grande escolha: eu queria ser GRANDE, grande o bastante para abraçar o mundo; fazer algo grande para o mundo. Hoje, ainda pequena na altura, grande na idade; olhei para o mundo e vi o quanto ainda sou pequena para ele. Quando muito eu poderia ser grande para o mundo de uma só pessoa, mas não para o mundo todo! O fato que eu teria de abrir mão do meu pequeno mundo e das minhas grandes ambições.
Até que certo dia eu notei: Fui dormir e estava só, acordei e ainda estava só; pensei, toquei, observei, imaginei, acreditei, cultivei, amei, adoeci, sobrevivi e ainda só! Foi então que eu me libertei dos grilhões, reagi aos açoites: restou apenas o duro fardo de minhas escolhas. Este eu terei de carregar só, se eu ainda quiser ser GRANDE!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Eu sou um Mutante

Já me disseram: "Eu te conheço muito bem!" ou "Eu conheço sua essência". Sobre estes eu tenho de admitir que alguns são muito bons em retórica, já chegaram a me convencer e até me confundir, outros são imbecis com mania de grandeza, donos de um super-ego tão grande que engoliu o senso e a modéstia, tornando-os em medíocres.

Para aqueles que supõem me conhecer tão bem como dizem, eu faço um apelo me apresente minha essência tão fujona e mutável! Pois eu sempre cometo erros ao meu respeito, quando penso me conhecer. É engraçado, pois até minha imagem frente ao espelho não é a mesma todos os dias. O espelho é um mestre na arte de trapacear as pessoas!

Quando penso me conhecer um pouco, esta coisa muda. E a mudança me confunde, ás vezes nem muda,e nas deixa de existir ou nasce repentinamente... Trata-se de um conhecimento vago, tão vago quanto o conhecimento teórico que um historiador possui de uma determinada época. Ou quando não é isso, resta-me apenas a lembrança fresca na memoria sobre mim mesma após alguns segundos. Pois quando penso no que eu acabei de fazer ou dizer, descobrir ou perceber, eu caio no mesmo erro de me lembrar.



A lembrança nos obriga a olhar para trás. Conhecer a si mesmo é ser sábio, mas uma sabedoria para poucos, pois nem sempre é possível olhar para os dois lados ao mesmo tempo, como faz o camaleão.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O Cubo Mágico (nota sobre a plenitude)


A vida é comparável á um cubo mágico, seis lados com milhares de combinações possíveis: todas segundo o meu critério, a minha vontade. Mas entre tantas combinações possíveis, apenas uma atinge o objetivo, é a perfeita. O chato é conseguir encontrar a combinação certa, entre tantas.
Dizem que é uma questão de raciocínio e muita atenção montar corretamente o cubo mágico, há quem defenda que a sorte leva o sujeito a completar todos os lados. De qualquer modo, sempre fui desprovida tanto do raciocínio quanto da sorte: quando monto um lado -depois de horas!- parto para o outro e acabo por bagunçar aquele que tanto me custou a montar... Não importa por onde eu comece, por qual cor eu opte, nunca cheguei nem perto do objetivo!
Se eu fosse contar com a sorte o tempo todo para arrumar a minha vida, NADA ou muito pouco iria fazer desta. Por outro lado, como eu disse, nunca fui muito boa com raciocínio ou fórmulas, principalmente aquelas realizadas com sucesso por aqueles que possuem muita perspicácia comparada á mim. Ainda que eu monte dois, três ou quatro lados, não serão os seis, então ou eu torno isso uma obsessão e fique completamente louca por conta de um jogo, ou eu acabo por me desiludir e com isso desista de tudo - como o que eu acabei fazendo com aquele cubo magico intrigante!
Não que seja impossível acertar todos os lados de uma vida, apenas é demasiado difícil para os que não são eleitos pela sorte e muito menos os que não são super dotados! O fato de eu ter desistido de cumprir a proposta daquele cubo mágico não me torna nem mais, nem menos infeliz; isto porque eu não desisti da vida, apenas mudei de estratégia: transformei meus bons momentos (tanto os que vivi, como os que viverei) embolas de sabão.
Estas bolhas são instantes belos, perfeitos, extraordinários, ao mesmo tempo que são singelos, frágeis e efêmeros. Somem tão rápido quanto o modo em que aparecem. O problema é o apego, pois a gente tende a querer eternizá-los, resolvemos tocá-los com a ponta dos dedos. Então a bolha explode: pois a felicidade é frágil demais para ser maculada por uma vontade cega. O que fazer é simples: contemplar esses momentos, se jogar. Mas sem se apegar, justamente por saber que eles não são eternos, sem pensar no antes ou no depois daquele momento.
Ninguém está inteiramente isento da desilusão ou da loucura, afinal quem nunca se desiludiu com aquela porcaria daquele cubo mágico?! O que me fez mudar de ideia não foi a lucidez ou a prudência, ao contrario, foi a modéstia mesmo! Com isso eu descobri que as bolhas de sabão podem ser tão infinitas quanto as combinações do cubo mágico, e tão perfeitas quanto aquela única combinação. Para isso eu não preciso de sorte ou fórmulas infalíveis. Apenas da minha vontade.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rouxinol e o Andarilho

Contemplo as estrelas.

Aproveito agora que posso vê-las.
É noite, é frio...

Tudo fluiu como num rio:
Do mesmo modo como a lua se despede,
tu desaparecestes...

Outrora mesmo, tu me dissestes:

"Me ame, não me esqueces!"


Tanto tempo á sua espera,

minhas reservas de doçuras,

meu amor, meus louvores e liberdade.

Tu prendestes atrás de grades

e consumistes tudo como fogo até o fim.

Desperdiçastes meu tempo, meus versos...

Tudo foi-se ao vento.


Em ruas escuras, estive eu

mil noites á sua procura.

Repentinamente, tu mudastes

tornastes indiferente...

Sumiu do mesmo modo que surgiu:

Antes do nascer do Sol, partiu-se

em direção ao mar.

Sem ao menos me dizer se iria, ou não,

para os meus braços sedentos voltar.




Desde então, sinto-me nua: sem girassol,
sem castelo. Tornei-me andarilho a vagar

por ruas desertas, desde que se foi meu Rouxinol...

domingo, 20 de junho de 2010

Descrença

Hoje é só mais um daqueles dias em que minha inspiração surge em meio á tragédias secretamente acumuladas. Desculpem-me se faltam-me palavras, orações e outras coisas incríveis, amáveis, e "benditas". Há tempos que não vejo o mundo, que não respiro, não o toco e nem o ouço em forma de poesia.
Minha fé vem sido, pouco a pouco consumida. A fé foi devorada pela realidade trágica e cruel, na qual, me sinto fadada: a dúvida. Sobre meu ceticismo atual,ele é fruto, o filho da própria fé, aparentemente inabalável. A cria da fé com algumas duzias de frustrações em um coração simplesmente esgotado!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

desabafo improvisado

A gente sonha, tenta sonhar...
A gente acredita ou finge ao menos escutar.
A gente pensa mas diz sem pensar,
Ama sem querer amar...
A gente tenta sorrir, começamos a mentir
pois queremos mesmo é chorar...

Confesso que não sei,
não sei onde errei,
talvez sonhei, pensei demais
acreditei em demasia,
perdi tempo gastei tudo em utopia.
Daqui a pouco mais um ano de existência
o tempo corre já me vejo em decadência.

Queria não perder tempo,
queria dançar ao vento,
queria sobretudo, falar
disso, aquilo e de tudo...
queria sobretudo em alguém
em que eu realmente pudesse confiar...
mas realmente, realmente
estou cansada de me enganar.

oceano



Onde está o oceano? O Uno platônico?


Quantas gotas d´água é preciso para formar um único oceano?





Quando penso á respeito fico confusa e gasto horas a tentar responder o enigma do UNO. Me lembro que na verdade não existe oceano, apenas centenas de manaciais e represas individuais e particulares. Começo a entender por que o planeta TERRA é terra e não ÁGUA: todos estão ocupados demais com o mundo particular e trivial que se esquecem do todo o resto. Alguns ainda se escondem por debaixo do solo em um lugar próximo dos pés e longe dos olhos.




Eis que me surge uma coisa um pouco menos melancólica, porém longe de ser bela ou feliz. Trata-se de uma impressão que, desde menina da pré-escola ocupava meus pensamentos e que gerava paralisias momentâneas...algo impertinente e ás vezes assustador, era como um continuo e triste despertar de um mesmo sonho. Há tempos deixei de ser a gota d´água de um oceano...Estou mais para o orvalho, as lágrimas frias da Aurora.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Entre dois extremos



Cheguei á um lugar, um lugar que nem ouso pensar...


É o limite, limite do ser e do não ser.


O ponto de encontro com o real e o surreal...


teatro, cinema, tela pintada em aquarela...


Um pouco de tudo, um pouco do vazio do nada...


Gente? Quanta gente com e sem muita cor


gente sem sabor...


Faltava calor, não o de verão...


o fraterno, gesto singelo...


Mas era um lugar belo,


um pouco vazio, colorido e sombrio.




Havia uma cabana, cabana de vidro


Uma redoma, um único amigo


e troussentos indivíduos:


personas, caricatas...


fantasmas, seres fictícios


que me fizeram crer na existência do nada.


Cada um ao seu modo, todos iguais por ser


espectros, todos iguais por serem reflexos.




Extremos opostos entre um mundo e outro.


Qual deles é o real, para sim e para não, ambos.


Qual deles o ideal?


Nenhum, nenhum me cabe, me contém, me pertence.


Talvez eu seja a linha entre esses dois extremos...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Caro sr. Heráclito:

Venho por meio desta, com o propósito de fazer algumas observações sobre o "Kósmo" e discutir um pouco sobre a "Sophía" de vosso tempo, comparando o todo com o meu tempo.
"Um homem vale mais que 10 mil, se for o melhor", brilhante observação caro mestre. Não só compreendo como concordo inteiramente com vossas sábias palavras! Sem dúvida alguma, 1 homem desperto vale mais que 10 mil sonâmbulos. "Tudo muda", será mesmo caro mestre?! De fato muita coisa mudou ao longo desses 2400 anos, -o senhor iria gostar de algumas invenções da Humanidade,- no entanto, ainda existe uma enorme e assustadora quantidade de pessoas que dormem, pessoas incapazes de compreender que "tudo é um". Sobre o "Lógos", não há esperança, tempo ou Oráculo piedoso que explique com clareza aos que dormem. Com todo respeito, não adianta defender a Humanidade dizendo máximas como: "a guerra é o pai das coisas", ou "a justiça é a discórdia, e tudo ocorre conforme a discórdia e a necessidade", não há o que ser dito...
Sei que sou mulher, e que para muitos gregos possuo carater duvidoso por ser mulher, - aliás muitos subestimaram a capacidade intelectual da mulher por puro preconceito!- mas, tenho que ressaltar o fato de haver tantos homens que não enxergam nada com a mesma clareza. E nem sou sou oráculo protegida de Apolo. Entendo que a a chama do fogo eterno tudo mensura e tudo transforma. Entendo que a desarmonia vive em uma harmonia oculta, e que o "Káos" se faz mesmo necessário. Mas... sabe como é, eu vejo e ouço tantos absurdos neste mundo que ás vezes dá vontade de sair incendiando tudo pela minha frente. Até mesmo o sr. se inspiraria em Nero se conhecesse mundo hoje em dia. Mas não posso, seria condenada na mesma hora: não disponho de recursos para pagar um bom Sofista, se é que o sr me entende. Nem todo filósofo Contemporâneo é Aristocrata como o sr, não sei se sabe.
Sei que o sr pensa sobre os pitagóricos, mesmo assim confesso estar recorrendo ao "Silêncio dos 5 anos". Jurei a mim mesma não perder mais tempo falando com os que dormem. Creio que o senhor entenda meus motivos: é inútil, um desgaste que resulta em nada. Aqui, as pessoas deixam de se informar sobre a Política, para falar de esporte- em especial, o futebol. Os próprios representantes de Estado pouco fazem, só discutem sobre o Futebol e a Copa do mundo.
Quando o assunto é pessoa ou melhor,"personas" - o que me remete ao companheiro Rousseau -estou caindo em um ceticismo radical: Só Pirro Salva! Desculpe-me, pelo menos estou sendo sincera! Aliás, mande minhas recomendações e pesares ao sr Epicuro, um homem excepcional!
Mas enfim, do jeito que andam as coisas me vejo seguindo o passo de um tal de Diógenes, o Cínico, seguindo o silêncio absoluto dos pitagóricos. O que o sr. me aconselha?
Att: Samantha F. Santos

sábado, 22 de maio de 2010

complicando e pouco contemplando

Sei que o Sol é o mesmo todos os dias, mas sei também que isso não muda o fato de que tanto o crepúsculo quanto o opúsculo serem únicos a cada dia. A gente não percebe porque o Sol está longe demais para emitir um som, e porque a gente insiste em complicar a vida em uma tentativa irônica de descomplicá-la. Então ocorre de um simples olhar se tornar tão monótono e apagado, tão e somente por ser intencionado como um mero olhar.
O mesmo ocorre com as bolhas de sabão - tão queridas durante a infância quanto tristemente ignoradas com o passar do tempo. Certo dia a gente acorda, percebe mudanças em nossos corpos, o olhar assim como a voz enrigece, os sonhos e os pensamentos ganham ou perdem consistência...Então como em um passe de mágica, as bolhas de sabão deixam de ser atraentes, perdem seu brilho diante de uma proposta de emprego, ou outras prioridades.
Mas o tempo que não vemos passar, a vida que tanto tememos perder, pouco a pouco se dissolve na atmosfera como as próprias bolhas de sabão. A gente se esquece da lei do mundo, a gente pensa que é eterno, ou nos esquecemos do quão rápido é o passar do tempo que leva para o efémero desaparecer no ar. A gente se esquece com o passar do tempo e se perde como areia ao vento...
A vida tem um jeito engraçado de nos pegar. o amor da nossa vida, por exemplo, pode estar do outro lado da rua, pode ser aquele belo garoto do lado de fora do ônibus, ou eu mesma ser a garota especial vista por alguém dentro de um ônibus; o amor que tanto idealizamos pode estar tão próximo a nós quanto a árvore está à um pedaço de terra, mas a gente não vê...a gente sempre muda o foco do olhar quando não é preciso e, quando é preciso a gente esquece, aí a gente envelhece e sofre a toa, perde oportunidades...

Tudo do que surge aos nossos olhos e ouvidos e poros...

em tudo habita vida.
Tudo acaba por estar vivo, e por estar vivo

nasce a beleza de se contemplar cada estrela que cai em um instante mágico, efêmero, fugidio e único:

Instante que apesar de ser tão breve,

não é o bastante para impedir que o fenômeno se eternize através mente dos que percebem, sentem, vivem...

domingo, 9 de maio de 2010

Decepção


Decepções... Estou virando uma especialista nessa área: tanto na arte de decepcionar, quanto na façanha de ser decepcionada. Parece mandinga, bruxaria, sina talvez vício. Acho que eu peco por meus excessos, talvez seja algo que surja a partir dos meus excessos e faltas...ou um ou outro, ás vezes os dois. Sempre assim, decepciono alguém que eu amo por não querer dizer algo ao meu respeito, por ser intangível e ausente. Decepciono alguém quando não digo algo, ou quando digo o que eu penso sobre algo. Decepciono quando não ajo como o esperado, ou de acordo com a lógica comportamental do Homem, enquanto espécie. Não sou de sentir remorsos, acontece que fatalmente as pessoas que eu amo, são sempre aquelas que eu mais decepciono, justamente na tentativa de não querer decepcionar.O resto do mundo, bem é o que menos importa. Na verdade, não sou eu quem decepciona o mundo, mas o mundo que me decepciona diariamente. Me decepciono com as pessoas diariamente e por diversos motivos. Me decepciono quando crio expectativas a respeito de uma ou de outra pessoa, então descubro que não era nada daquilo que eu pensava, neste caso me decepciono duas vezes: pelo o outro e por mim. Me decepciono no amor, já me decepcionei em amizades, com parentes, com crenças...comigo! Mas sou otimista, um dia quem sabe eu vou parar de me importar e de me impressionar. Nesse dia eu vou ver as coisas como são e vou aprender a confiar mais em mim e desconfiar de todo o resto.
Agora se por ventura eu acabei de decepcionar alguém em especial, alguém que vale a pena minhas retratações. Para essa pessoa eu digo:
" Desculpe-me sinceramente, não foi minha intenção. No entanto, certamente você também já decepcionou alguém!"

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ame e me deixe


Ame e me deixe... me deixe a sós com meu temperamento oscilante.
Ame meus desejos, quero beijos embebecidos de loucura viciante.
Ame e me deixe ao amanhecer. Volte só ao anoitecer. Preciso da
saudade para de mim ou de ti, esquecer-me...
Me cative, me cultive... cuidado, não se apegue!Não se flagele, não se negue
por uma idolatria absurda e doentia.

Me ame e me deixe...Não seja egoísta consigo, por ser tão altruísta comigo
e meus caprichos. Ame meus desvarios e destemperos, me revele vários de
seus devaneios.
Ame e diga que não ama. Minta e diga: "eu te odeio!" Não espero herói, nem
quero vilão. Se ama, como sugiro que ame, não me venha com discursos típicos
de protagonistas heróicos ou retóricos, prefiro os antagonistas - especialmente
os paranóicos.

Não me iluda, é mais prudente e até carinhoso de sua parte, me tornar em uma
desiludida . Me deixe nua com palavras puras e cruas. Me ame e me deixe...E
nada me prometa e em nada se intrometa.
Ame ao anoitecer, desame ao amanhecer. Seja o que acontecer me impressione,
me pressione a impressionar. Seja impressionável e impressionante. Não quero
e nem espero apenas o extraordinário, me apresente o outro: o miserável.

Ame e me deixe...me deixe amar, me deixe pensar, me deixe respirar. Não minta,
apenas sinta. E se realmente quiser, diga o que sente. Aceite o meu presente: Ame
e viva comigo o instante fugidio, a contradição entre o eterno e o efêmero, mas não tente eternizar aquilo que o tempo acabou de levar....

Apenas ame e me deixe...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

A risada do Palhaço


O palhaço não ri de si mesmo por achar tudo(incluindo a si mesmo) engraçado. O Palhaço ri para atenuar sua dor ou necessidade, ri por proteção e para tentar sobreviver de algum modo. Afinal de contas, não é muito legal quando o mundo inteiro toma ciência da fragilidade de um sujeito, ainda mais de um inofensivo Palhaço. Ainda que haja pessoas bondosas e cuidadosas, existem também os sádicos que sentem-se saciados por um prazer que consiste em estraçalhar um sujeito menor.

A maior parte das pessoas aguardam o futuro sempre com esperança e otimismo no presente. Este não é o meu caso, na verdade sempre me sinto angustiada, eu temo sem saber o que ou o por que. Mesmo entre os momentos de alegria sinto um pouco de angústia, pois sempre há uma tristeza que antecede ou sucede na mesma proporção a alegria. Sempre há um sacrifício a ser feito, não importa o que a gente faça ou deixe de fazer. No meu caso, eu sei exactamente o que fazer para combater esta sensação latejante: retirar do baú a roupa velha do Palhaço estranho e retornar ao publico.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Existe um lugar

No fundo de um coração existe um lugar secreto. Tão secreto que é preciso ter um mapa para se ter um acesso. É um lugar mágico e belo, parece pintura de aquarela. Existem flores diversas: pequenas e grandes, singelas e complexas. São tantas as flores que parece até um mar, mas o mar também habita naquele distinto lugar.
Existe também um palacete medieval, um pouco empoeirado - há tempos não recebe honroso convidado. Mas é belo, de beleza simples e peculiar. Em outros tempos havia uma donzela que cultivava hábitos da realeza, que ali se esmerava, limpava e ficava a esperar. Tanto tempo se passou, a donzela se cansou e de seu pequeno refugio evacuou: trancou o lugar belo e secreto e no mar se aventurou. No pescoço carregava uma chave do castelo e á uma ave confiava o mapa que escondera em mais distante lugar. Passara-se tanto, tanto tempo e o palacete isolado e empoeirado ali permanecia. Sobre a Donzela, esta aos sete mares adormecia à espera de um instante que nunca
acontecia. Entre tantas aventuras muitos piratas surgiam e a chave do coração todos eles queriam. Mas sem o mapa, no lugar secreto, eles nunca poderiam chegar.
Compadecida do tormento da Donzela, a ave amiga e prudente um dia lhe trouxera o mapa de volta, mas antes explicou a Donzela a importância de usar de um artifício antes de confiá-lo a um cavalheiro. O mapa não era mágico. Não havia feitiço ou exorbitantes artifícios para merecê-lo. Aliás, o que tornaria a posse do mapa quase impossível era justamente a simplicidade em merecê-lo. Gestos simples, nada de dragões, palavras simples, nada de magia estes eram os quesitos. O merecedor deve ser corajoso e ao mesmo tempo prudente. Corajoso e disposto a um mar desbravar, prudente ao coração da moça querer conquistar. Ardiloso, o momento certo saber aproveitar, uma estrela cadente saber contemplar e uma bolha de sabão com a Donzela querer formar. Sem desvarios ou excessos: com uma margarida roubada a chave da Donzela conquistar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Como Cristal



Um indivíduo singular surge da terra à milhas de distância, em solo fértil e virgem. Ele leva anos para existir, desenvolver-se e finalmente ser notado. É forte, tão resistente... Se não fosse, não haveria aqui um único exemplar remanescente. É belo...Deus, como é belo!


As lágrimas celestiais o molham, o Sol o ilumina...Abracadabra! Um Arco-Íris dentro do Cristal se revela:


Se lapidar um pouco aqui, minar um pouco ali, outros Arco-Íris internos irão se desvelar. Então aquilo que já era belo, Sublime tornar-se-á... Uma lasca aqui, outra ali...uma, outra e mais outra: uma nova e fabulosa forma acaba de emergir; centenas de arco-íris acabamos por enfim descobrir ao passo que uma transparência perfeita e singular acabamos por conseguir...

-Fabulosa é a beleza do indivíduo que sente, pensa e cria. Sua profunda sensibilidade, suas idealidades, palavras e gestos...uma beleza transparente: imanente e singular, que nos permite contemplar diversos arco-íris em tantos ângulos...é extraordinário! Um cristal constantemente cortado e desvelado...

CRACK!!!!!!!!! ( uma queda, uma perda!)

-Como é frágil o indivíduo! Incrivelmente frágil tanto quanto belo! Quanto mais mais lapidado mais belo, mais frágil... Mais revelado, maior deve ser o cuidado!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Discurso de um sujeito que atende por ausente



Eu não sou um monstro! Por favor acreditem em mim! Eu não sou um vilão, nem donzela em apuros, nem herói...Se me calo, se me afasto...não é por não ser humano, não é por não chorar ou deixar de sentir muito ou pouco, pelo contrário: sou humano, eu choro sim (mesmo às escondidas), sinto quando me importo. Só não gosto que me vejam.


Por que reduzem minha conduta a mero egoísmo, se tudo que eu procuro é não causar transtornos, conflitos despropositados e desmedidos? Por que sentem tanto a minha falta? Sou tão pouco, nada exceto uma ou outra pessoa é tudo o que tenho. De resto, eu mesma sou a própria falta, entregue á própria sorte...Não tenho grandes dons, virtudes me são tão poucas e das poucas, muitas são escassas...não detenho beleza, nem riqueza. Longe de ser sábia, se fosse eu seria um pouco racional. Também não sou passional, pois a maior parte das paixões, com o tempo, voaram como folhas através do vento.


Eu quero partir, mas não sei a onde. mas não quero partir se o preço for partir em dois os que estranhamente sentem por meu silêncio ou ausência. Por favor, não chorem! Nem se preocupem ou sintam em demasia uma ausência fictícia! Não entendam por egoísmo querer arejar a "caixa pensante". Desculpem a imbecilidade deste sujeito errante e pouco dançante, desculpem a economia das palavras, dos gestos e encontros. Infelizmente, não sou dotada o suficiente de senso para estabelecer alguns limites em minhas ações...


O mistério de minha ausência é o não fazer notar meus desvarios, é o não ferir covardemente um outro ser, por conta de uma explosão de insensatez. Aquilo que vocês tanto sentem falta em mim não existe, talvez nunca tenha existido...Não, eu não sou um monstro só por não ser um mártir!


-Mas quem no mundo entenderia ou se quer acreditaria, se eu assim me revelasse?

-Quem és tu, Samantha?


Estou em uma fase em que só me resta o nome, como a certeza do que eu sou: não sou de esquerda, de direita, de centro; não sou negra, branca, vermelha ou amarela; nem cristã, pagã, , ateia, cética ou niilista; eu não sou hetero, homo, bi ou assexuada.

Só resta o nome. Nem as lembranças me servem, pois toda a lembrança que possuo, assim como o conhecimento de mim mesmo e de todo, há tempos fundiram-se às ficções construídas pelo lado direito do cérebro.

"Imagino" saber algo um pouco além do nome. Na verdade, eu só faço de minhas imagens e projeções, minhas crenças. Agora se há verdade, se é que há verdade em tudo isso, eu não sei, apenas creio haver.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Cênicas

Aos amigos das artes e sobreviventes...




O mundo todo reduziu-se à uma temporada interminável e tediosa de ópera: o mesmo ritmo, com as mesmas pausas dramáticas, o mesmo humor ácido - que de tão previsíveis já perderam a graça. O que muda no mundo são os atores em cena, e os dias da semana, de resto, tudo é tão simplista e óbvio que, antever o final da trama nos primeiros cinco minutos é coisa para qualquer um: especialistas e charlatães, crianças e idosos.

Falta verdade no mundo. Não, verdade é o que mais se encontra neste mundo: objetivas, subjetivas, relativistas... O Homem escolhe aquilo que lhe convém, de acordo com suas crenças e entendimento. Assim nasce um religioso, um cético, um ateu. Ou um libertino, um romântico, um niilista.

"Deus existe?" "Sim, é a Gaia." "Não, o que há é a matéria." A mesma pergunta e inúmeras respostas, muitas comprovadas pela lógica que tenta justificar a lógica absurda do mundo. Para cada resposta, uma verdade...uma falsidade. Sem dúvida, "O Homem é a medida de todas as coisas".

Não faltam verdades no mundo, ao passo que para cada verdade desvelada, desvela-se uma ou outra falsidade mascarada de verdade. Falta sinceridade na hora de um "SER" voltar a "OUTRO SER", com o intuito de mostrar aquilo que se "É", se pensa, se sente - com sigo mesmo ou com o outro.

Mas a grande Ópera interminável, previsível e tediosa não dá espaço para os artistas revelarem seus talentos. É por essas e por outras que eu prefiro a VERDADE do Teatro do Absurdo: onde o cômico é o trágico, aquilo que se passa por irrealidade é o mais próximo da realidade objetiva, ao qual nos condicionamos diariamente ao longo da Ópera.

Porém, mesmo os artistas odiando o que fazem - ou o modo como fazem - , estes estão demasiadamente viciados em seu clichês tão mecânicos, que não conseguem consertar o desastroso espetáculo - ou o Mundo Contemporâneo. Tornaram-se cegos, surdos ou loucos: atuam com talento o desastroso roteiro, não gostam mas sobrevivem á uma estranha lógica do -1, que no final torna-se em +1 até o finito do infinito, o fim do "SER".

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sufoco

Não sofro de asma ou qualquer
outra doença respiratória. Também não sou claustrofóbica, eu consigo sobreviver
bem em lugares fechados, sem grandes histerias. Não sou alérgica á animais, nem
sofro com alterações climáticas. Mas sinto falta de ar, em qualquer hora e
lugar. Sufoco em casa, na rua, em casa de terceiros. Ás vezes sinto minha
voz aguda e renitente ser abafada. Outras, sinto o ar ou o espaço comprimir o
corpo. Por inúmeras vezes acreditei mesmo ser loucura, desvario ou até frescura
mesmo...
Seja lá o que for, nessas
horas de sufoco procuro me conter, não me desesperar: gasta-se mais oxigênio e o
coração acelera todas as vezes em que deixamos as emoções dominar o corpo. Então
digo a mim mesma, como um curandeiro para seu paciente: "acalme-se logo vai
passar!
". O engraçado é que nunca passou, quando muito posso sentir um
alívio que dura o suficiente para recuperar o fôlego, antes de outra
crise.
Acontece que com o passar do
tempo, minha patologia cronica assim como todas, agravou-se a tal ponto que nem
sempre consigo manter o mesmo controle habitual. Se o problema fosse em casa,
mudaria de casa. Mas, não... Seja em casa, na rua, no mercado, no ônibus:
"As pessoas encaram as coisa com tanta naturalidade, sejam coisas simples,
complexas e absurdas...A percepção humana é tão mecânica quanto suas ações! Tudo
é extremamente natural para meus concidadãos!"
Tal naturalidade horas me
irrita, horas me sufoca em uma atmosfera que não me pertence. E a consciência
que possuo da naturalidade alheia e meu assombro perante o absurdo, me
enlouquece lenta e silenciosamente...



Descartável

Ás vezes, tenho a nítida sensação de que eu - cedo ou tarde - serei consumida pelo mundo. Tal sensação me causa revolta, é difícil aceitar que eu sobrevivi até aqui e anda sobrevivo para que no final eu seja simplesmente: engolida, digerida e defecada pelo mundo. Seja tal fato apenas uma possibilidade ou um fato irrefutável, em ambos os casos, perceber que a qualquer momento seremos consumidos e descaradamente descartados é violento demais!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ser um instante



Sou, fui, serei:

-Eu fui? Será que fui? Me lembro ainda se eu fui?
Eu sou quem eu fui? O que muda saber o que fui? -Eu serei? Será que serei? Lembrarei-me ainda do que fui e do que serei? Serei eu aquilo que eu sou? O que mudará saber hoje o que eu ainda serei?


Só sei que sou: O que fui não lembro... lembranças tenho do que sou. Só sei quem sou: Amanhã talvez, eu descubra o que serei quando eu o ser... e esqueça o que fui hoje. Ou não, vai saber... O que serei é tão vago quanto o que fui, só me lembro de hoje. Conhecimento do "ego" é conhecimento impreciso...conhecer é descobrir á todo tempo o eu mutável: não dá para lembrar, tão pouco, projectar...
H
oje eu quero conhecer a mim mesmo no dia de hoje, sem pressa, no presente instante: na eternidade do "agora". Eterno, pois, o instante fugidio é a única certeza imutável. O presente é o eterno: o que fui e o que serei não existem...
Assim como as indagações, as infinitas reticências e pontos, nada disso importa:
eles foram e não são - ficaram á um segundo atrás, durante o meio tempo em que eu descrevo o que sou ou o que sinto no "agora". E o que deixa de ser, importa tanto quanto o que virá a ser: NADA.
O que importa é
o que é, o que foi deixou de ser e o que "será" talvez importe quando for
...ou não...

sexta-feira, 5 de março de 2010

Dois Fantasmas

As vezes é saudade. Saudade fininha e aguda, como a ponta da agulha quando pica a carne. Mas diferente da agulha, a saudade não deixa vestígio de sangue, apesar de deixar marcas. As marcas são invisíveis, são crateras que não se vê, mas que se sente.

Outras vezes, uma mistura: ansiedade e esperança. A mistura resulta em outra coisa: é como o vermelho e o azul que juntos, resultam em roxo. O roxo não é um e nem o outro. Uma vez misturados não podem ser separados, apenas diluído em um pouco mais de um e um pouco menos do outro. Mas a mistura não resulta em verde, roxo ou laranja; não é uma cor primária ou neutra. A mistura é invisível, mas tão intocável quanto as sete cores do arco-íris ou as sete notas musicais.

A saudade é sempre uma tristeza do que se foi, mas que surge no presente instante enquanto sentimento de falta. A saudade é sempre algo insistente, um fantasma ou espírito que assombra em tempo diferente.


A esperança é o Horizonte: vai embora quando deixamos de ver e ou de buscar. A esperança por algo que desconhecemos gera ansiedade e angústia: é como a sede dentro do oceano. Não é fantasma do que se foi, mas do que virá a ser.

Música




Não minto quando digo sentir quando ouço. Sinto mesmo sem sentir ou ser sentida. Parece ser sem sentido dizer que sinto dizer que o ouvido sente "Dó" quando ouve "Lá" sustenido ou destemido, o pequeno mim, este que de tão pequeno e agudo se passa por "Mi".
Acontece de as vezes, o "Mi" por ser tão agudo, quase se faz de mudo. Mas sinto um sopro, um ritmo desritmado vindo de "lá": 2 notas que juntas dizem sem dizer uma palavra: "Fá SI" e, que de tanto repetir, traz á tona uma outra face de "Mi".
Agora suspendi a "Dó", e em busca de "Mi", deixei de dar "Ré". Então descobri entre uma "Fá" "Sí" e outra, um "Sol". Eu vi o "Sol" mas não o toquei.
Ouvi, mas não parei só no ouvir, eu senti. Não vou mentir, preciso interagir de novo com o "Mi" antes de descrever a "Fá""Sí " do "Sol".

Mas confesso sentir medo de fazer a "Ré" e ver a antiga "Fá""Sí" de "Mi" e sentir "Dó".

quarta-feira, 3 de março de 2010

Agora


A ponte que divide uma nota de outra: ou a partitura que descreve o instante que precede o ontem ou antecede o amanhã: ou o cheiro que antecipa o gosto, como o instinto que sobressai as verdadeiras vontades e a textura das cores em meus dedos, lábios ou nariz: é o Agora.

terça-feira, 2 de março de 2010

esconde-esconde


Ao menor esforço de esquecer a gente lembra. E a lembrança que não quer ser esquecida vem mais forte. Então, surge a vontade de se esconder das pessoas, do mundo e seus reflexos, de si. Mas o escuro é apenas a ausência de luz: não faz mágica, quando muito camufla.
Porém, o tempo passa e o velho truque fica velho mesmo, por ser tão velho perde a graça, é logo descoberto: por mais que a gente engane um ou outro, ou até mesmo todo mundo, a gente não engana a si mesmo. Não conseguimos esconder de si mesmo. O truque não funciona, engana, mas logo desengana.

Conversando com "MIM"

S
into a mim mesma: eu penso, eu toco, eu vejo... Mas o "Mim" é um ser ainda desconhecido. Sou um ser que refere-se a si mesmo no passado. Um ser que se compreende através de uma história mal contada: uma história com um começo pouco compreendido, um meio perdido e, um fim a ser escrito.
Um Ser que se perde em frente ao espelho do mundo, em meio á silenciosas indagações, teorias e experiências- com e para si mesmo. Um Ser que busca explicações que só serão apresentadas no fim do Ser. Um ser constantemente inventado e reinventado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Enigmas




"O lugar ao Sol" jaz no mais profundo dos abismos. É preciso ser corajoso ou inconsequenteo bastante para permitir-se ser engolido por um buraco negro e, ir de encontro ao Sol.

Todavia, não pode-se esperar grandes méritos ou honrarias por cometer inusitadas ações, pois ainda que tratem-se de altruísmo ou capricho, "a consciência que os expectadores possuem das estrelas e supernovas só é adquirida após anos e mais anos-luzes".

Vislumbramos o futuro, mas vivemos a contemplar o que se passou: "tudo o que notamos no céu estrelado com olhos de novidade,- seja uma constelação ou uma estrela-cadente,- não passa daquilo que já foi e não mais é ".

O mundo está em um constante atraso. A prova jaz em nós mesmos, basta voltar os olhos aos planetas, estrelas e centenas de buracos negros que habitam dentro de nós; aos redores de mundos circundantes que transitamos; ou o grande Universo transcendente que tanto observamos.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Girassol

É dia, tarde de verão, mas o dia passou e o Sol não radia. O Sol se esconde entre as nuvens faz dias...

Por onde anda o Sol que desconserta o riso?

Onde está o Sol de minhas alegrias, que radia meus dias?

O Rouxinol de tão triste que ficou por conta da falta de sorriso do Sol, hoje não cantou.

E eu que não sou tão grande e brilhante, que não canto, me encontro em um canto só, á espera do canto do Rouxinol que depende do brilho do Sol...


Sem Sol não sou Sol, sem Sol não sou eu, um Girassol...
Sem Rouxinol, não há motivo para brilhar...
Sem eles, não tem por que desabrochar...

Então eu fico, Fico Só:
Fico só a lamentar a falta do Sol,
e a falta do sol do Rouxinol...



Chuva






Ultimamente ando muito sensível ás coisas. Uma mera palavra, um gesto, lembrança, canção ou brisa - tal qual o cheiro da chuva- é suficiente para fazer com que as águas internas lavem em abundância meus olhos.
Nem toda chuva é dilúvio. É mais fácil uma pessoa morrer por falta do que por excesso. Claro que a chuva em excesso não é boa - as vítimas das enchentes que o digam! Mas a seca é pior: a seca seca os sentimentos, alimenta apenas a esperança dos esfomeados, mas não mata a fome da vida. Chover é importante, pois gera vida, preserva a vida, renova a vida.
Eu enquanto um microsmo de um macrocosmo sempre reajo: efetuo um movimento, meu corpo o faz, ainda que em silêncio. Volta e meia, meu corpo faz chover: chuvas rápidas, tempestades com raios e trovões, tudo de acordo com a temperatura das emoções afloradas á partir de um fator externo em choque com o interno. Mas ao contrário do macrocosmo, este microcosmo chove de dentro para fora, não chora de fora para dentro.
É como se eu fosse o espelho do mundo, ou o mundo, o espelho ampliado de mim: á esta altura u já não sei quem é a "mímese" de quem. Tudo o que sei é que graças ao movimento do mundo, eu reconheço o meu: eu chovo, pois o mundo contribui através de pequenos fenômenos constantemente gerados por ele.
Nos últimos tempos tem chovido muito a onde eu moro. No começo era bom: agricultores comemoravam uma boa colheita ao final da estação, a chuva limpava o ar e refrescava. Agora, agricultores começam a perder suas colheitas, pessoas perdem casas, algumas perdem outras pessoas. Já não ligo a televisão, para não ver os estragos da chuva e, com isso, causar uma tempestade interna e alagar meus olhos ou afogar o coração.

Quando a gente chove em excesso, muita coisa se perde na enchente: lembranças, ideais...O coração parece que vai se perder em um bueiro escuro e sujo, o corpo esquenta antes e depois da chuva. E durante, o corpo refresca, mas é durante a chuva que o corpo permanece tenso: tensão que atormenta a alma.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Suco de laranja

No começo da semana tive um encontro com minhas lembranças de garotinha. Estava quente. (Sobre este ponto aliás, o Paraíso para mim jaz na Sibéria, odeio verão! Odeio transpirar excessivamente, aquela luminosidade, o ar quente que nos impede de melhor gesticularmos, não importa a quantidade de banhos ou líquidos que ingerimos, o calor não passa!)


Mas enfim, o verão trouxe vantagens este ano. Por exemplo, estava eu andando nas ruas do centro de Osasco, com muita sede quando vi uma banquinha que estava vendendo suco natural de laranja. Perguntei ao dono se o produto era de fato natural, quero dizer, se o tal suco de laranja era laranja mesmo. Nem precisou, só o cheiro e a textura do suco me persuadiu: aqueles sucos industrializados são pavorosos! Suco bom, é suco natural, na falta é preferível ingerir água.


Perguntei em seguida se o suco era adoçado, a razão é simples: odeio suco com muito açúcar, principalmente aqueles de poupa ou os de laranja. O açúcar tira o sabor da fruta, sendo assim, salvo o suco de limão, os demais vão com no máximo uma colher de sopa de açúcar rasa para um copo de 250 ml. Se for mais do que isso eu sinto a diferença no sabor e aquilo que deveria ser um prazer vira algo monótono, sem graça mesmo. Todas as vezes em que eu peço um suco natural, eu passo raiva: sempre tem uma pessoa que não ouve a única colher de açúcar no suco. E, no caso do suco de laranja, ocorre algo ainda pior: o suco é visivelmente diluído, mais água do que laranja, para disfarçar o gosto insosso, acrescentam açúcar.


Para minha felicidade o simpático senhor respondeu que não adoçava o suco, então eu sorri e pedi um copo grande. Me senti tão feliz quanto uma criança quando ganha chocolate na Páscoa. Então veio o momento mágico: Ao dar o primeiro gole, não só matei a sede que sentia até então, como veio na memória um gosto que eu sentia aos 4 ou 5 anos.


Lembro me que minha avó materna se casara com um senhor muito bom e doce, um pouco sério e fechado, mas um ser humano maravilhoso. Sendo eu a primeira filha da primeira filha, isto é, a primeira neta, eu era incrivelmente mimada tanto pela minha avó quanto por este senhor que, me tinha como neta. Todos os dias em que eu estivera na casa da minha avó, este homem sempre me comprava balinhas de açúcar que vinham nos brinquedinhos, eu tinha uma coleção: ferro de passar, fogão, liquidificador, etc... Mas a gente compartilhava de um gosto único e singular por suco de laranja, éramos igualmente exigentes: pouca água, nada de açúcar, a laranja não pode ser nem muito doce nem muito azeda, mais para o azedo do que para o doce.


Infelizmente o casamento entre eles não deu certo. Ele separou-se de minha avó quando meu irmão tinha poucos meses de vida. Perdemos contato, pois há 16 anos atrás não era como hoje, não tinha telefone a disposição do povo, celular talvez nem existisse, internet muito menos... O fato é que ainda que eu soubesse que ele não era o meu avô, o sentimento que eu sempre alimentei por ele era o mesmo de uma neta. Diria até que se eu o encontrasse em uma rua, eu seria capaz de reconhecê-lo, muito mais até que alguns colegas de escola e balada. Acho que é sentimento, quando se estima muito uma pessoa, por mais tempo que fiquemos sem nos ver, o esquecimento esquece-se de si mesmo, porque o sentimento de amor e cuidado, ainda que vestido de saudade, acaba por vencer a amnésia.


O suco de laranja me fez lembrar, e me fez sentir mais saudade. Mas a saudade, não é tão ruim assim, nos faz lembrar. Talvez hoje eu entenda o por que que a "Saudade precede o Amor"...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Devaneios ao redor do mundo

Existe um mundo. Eu o vejo, eu o toco, eu o ouço. Existe um mundo: eu existo, eu o sou. O que é este mundo? O que constitui este mundo além de uma consciência consciente dos objetos que surgem aos meus olhos, ouvidos, nariz, boca, toque e memória? Quantos mundos é preciso para formar um só mundo? Quantos mundos surgem á partir de um só mundo? Como é possível o TODO surgir do NADA? O NADA deixou de ser, para tornar-se o TODO? O NADA morreu? exinguiu-se? O mesmo pode ocorre com o TODO? O TODO pode algum dia transmutar-se em NADA? E o mundo? O meu mundo, o mundo todo? Destinará-se ao nada? Por quanto tempo?

O NADA

Vontade do NADA. Vontade que me atinge o tempo todo. Ainda que soe absurdo, querer o NADA é semelhante a querer o TODO. O NADA, não é mais vago que o TODO.
Em um mundo tão paradoxal, o NADA sem dúvida alguma é de todos os elementos existentes o menos absurdo, na medida que entende-se por NADA algo inexistente.
Um ser que anseia o TODO, destina-se ao NADA, ao passo que, em nome do anseio o sujeito consome a si mesmo. Só o NADA é eterno, pois tudo torna-se cedo ou tarde desmancha-se no ar como bolhas de sabão.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

segredo

Não faltam-me as ideias, palavras ou fenômenos que me inspirem a escrever.


Acontece que, as palavras são demasiadas puras para expressar fielmente meus pensamentos mais insensatos e profanos.


Mantenho-me em silêncio, para preservar mais este segredo. Não me perdoaria sujar as mais puras palavras...
Sem mais...

Sonhando com o futuro




O futuro não existe sem presente. O futuro é uma sede impertinente...

Como sonho, o futuro depende do anseio de um sujeito existente. Habita no seio esperançoso; não é anseio honroso, tão pouco desonroso...
O sonho depende de um corpo exausto de vigília. O futuro, da rotina do dia-a-dia.

O futuro mata como uma constante vigília. O sonho fere quando torna-se em súbito desejo do dia-a-dia.




-Sonhar com o futuro é bom? Faz mal?



Enquanto penso, sonho e espero o futuro, grãos de areia continuam a cair de um extremo ao outro da ampulheta. Não as vejo, não sei quantos grãos de vida ainda me restam. Não conto, mas ainda espero por um futuro enquanto sonho...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mera ilusão de óptica...


Muitos tem por hábito tomar por verdade um pressuposto á partir de um efeito ou a imagem que lhes são apresentados. Esta afirmação pode ser facilmente aplicada em várias situações. Todos tendem a julgar um sujeito ou um evento a partir do efeito, esquecendo-se de analisar possíveis causas. Ocorre então um julgamento ingênuo, muitas vezes até errôneo, devido á tamanha precipitação ao construir uma suposta verdade á partir de certas opiniões ou pré-conceitos. Ao longo da História nos deparamos com diversos exemplos de pré-juízos ou paradigmas tomados por verdade. Equívocos que tomam proporções sérias, que acarretam - e ainda acarretam- no atraso do Homem.

Mesmo assim, insistimos no velho hábito tomar por verdade a aparência de algo. Entretanto, somos tão contraditórios... Detestamos a ideia de sermos enganados e, mais do que isso, de sermos julgados erroneamente.

Se eu afirmasse que tal comportamento me impressiona, certamente estaria mentindo. Uma vez que tal comportamento trata-se de um comportamento padrão. E o padrão não possui algo de inovador o bastante para causar assombro ou fascínio. Porém, mentiria igualmente se eu afirmasse que o comportamento padrão, a famosa ilusão de óptica não me causa grandes transtornos e aborrecimentos.

Desculpe Meu Amor

90% dos seus chiloques eu não entendo. Desculpe, mas eu simplesmente e francamente não compreendo! Ah, meu Amor você é tão lindo! Isto po...